Assim traduz Almeida Século XXI, Lucas 24:17. Prefiro a tradução de o Novo Testamento Vivo (Mundo Cristão), que diz: ”eles pararam com a tristeza estampada na face”. Concorda com Marcos 16:10. “Os quais estavam tristes, e chorando”. A tristeza quase sempre vem acompanhada do choro. Lágrimas e tristeza são companheiras inseparáveis. A tristeza é maior quando se desce de Jerusalém para Emaús. A conversa gira sobre o enigma da cruz que desfez a esperança acalentada durante longo tempo. A tristeza oprime quando você não consegue encaixar o quebra-cabeça das decisões e indecisões humanas. Participa do espetáculo como observador. Até certo ponto como coadjuvante, mas sem poder mudar o script. Gerir as cenas. Alterar o palco da vida. Lançar mais luzes sobre a cena principal. A mente escreveu um roteiro, mas as personagens, artistas, convidados e o público mudam toda a história com final inesperado. Você assiste e diz: ”Não foi o que planejei”. Mas não lhe é dado poder de interferir.

Os dois discípulos, não integravam o seleto grupo dos doze, mas alimentavam as expectativas dos doze e de todos os demais judeus que viviam sob o domínio romano. A redenção política de Israel. O sonho de voltar aos áureos tempos de Davi. Povo livre, com seu próprio governo. “Nós esperávamos que fosse ele (Jesus) o que traria a redenção a Israel” Lucas 24:21. Mas ele morreu! Após a ressurreição a esperança de libertação continuava a fluir nas conversas com o Mestre. ”Senhor, é este o tempo em que restaurarás o reino a Israel?” Atos 1:6.

O anseio por liberdade é tão profundo no ser humano que nem mesmo a tragédia do Calvário conseguiu eliminar essa busca. Só após a compreensão do verdadeiro significado da cruz é possível mudar o conceito de liberdade. A cruz amplia a liberdade e dá ao salvo sentimento mais profundo do que seja ser livre. “Estai firmes na liberdade com que Cristo nos libertou…” Gálatas 5:1. Liberdade independente de conotação política. Não há necessidade de um reino materializado em um país. É a liberdade que dá à alma a plena consciência de si mesma, oferecendo-lhe condições de usar todos os recursos do espírito para alçar voo ao desconhecido. Esse desvendar dos mistérios do eu ou do ser capacita-nos a decidir entre o efêmero e o eterno.

Aqueles tristes discípulos, naquele momento, estavam presos ao anseio de liberdade terrena. Sonhavam com algo tangível. Visível e delimitado por contornos físicos e políticos. Um rei. Um governo. Um sistema. Uma sigla. Tudo limitado no tempo e no espaço. Por isso estavam tristes.

Quando os nossos sonhos, anseios e dedicação cingem-se a um continente mensurável a tristeza é constante. Nenhum poder humano consegue preencher o vazio maior que acolhemos em nosso ser. Sempre almejamos mais. A revolta com as injustiças sociais. Os descasos daqueles que governam ao afrontar a dignidade dos menos afortunados, são fontes de tristezas permanentes. Sempre há uma cruz pregada no monte dos nossos anseios. O Calvário que revela-nos a indignidade do ser humano. Desnuda o que de mais horrendo existe na criatura decaída. Não há crimes bárbaros. Todos os crimes são bárbaros. Todas as injustiças ferem o nosso sonho de felicidade e convívio harmonioso. Pouco importa se a decisão partiu da autoridade eclesiástica, Anás ou Caifás. Confirmada por Herodes. Assinada por Pilatos. Executada pelo rude soldado, cuja inteligência não consegue extrapolar a ordem recebida. Não importa se os amigos fugiram. Os parentes e os mais achegados apenas contemplaram de longe, impotentes, à execução e consequente eliminação do nosso ideal maior. A dor existe. Não tanto pelo agir dos que deveriam nos defender. Mas pelo silêncio dos que deviam protestar e se calaram.

O caminho de Emaús é o lugar ideal para dirimir as dúvidas. Questionar os acontecimentos. Enquanto a tarde se esvai e a penumbra da noite com seu manto de ébano nos envolvem, choramos. É bom chorar a caminho de Emaús. A sombra da noite consegue encobrir a nossa dor. Afastar-se do cenário para dialogar com o amigo de infortúnio, sempre nos faz bem. É bom ter um amigo para caminhar conosco em direção a Emaús. São poucos os que aceitam caminhar conosco, quando temos perguntas irrespondíveis. As perguntas, sem repostas, se transformam em lenitivo. Uma espécie de fuga necessária à sobrevivência. Não é catarse. Na verdade não buscamos respostas. Elas nos assustam. Desejamos apenas perguntar. De nós para nós mesmos. Monólogo, sem som. Silêncio da alma a questionar o inquestionável. Emaús é necessário. Não só como rota de fuga. Mas como tempo para recolocar nos seus devidos lugares os pensamentos confusos do Calvário, imposto por terceiros aos inocentes.

Felizes, aqueles discípulos experimentaram a tristeza apenas por uma tarde. Outros há em que Emaús exige mais tempo. Os anos se passam e continuamos a descer com o nosso monólogo. Eles foram abordados pelo Cristo ressurreto. Receberam carinhosa repreensão. As verdades antigas e as desbotadas folhas proféticas ganharam novos coloridos. O partir do pão aclara-lhes os olhos. Conseguem ver os sinais dos cravos. O coração arde. Pulsa com maior rapidez. Tudo muda. O reino desejado deixa de ser material para envolvê-los na gloriosa esperança do reino celestial. O riso volta. As antigas perguntas parecem-lhes agora banais. O anseio em compartilhar os leva de volta à cena do Calvário. Não há mais tristezas. A alegria agora é perfeita.

Pouco importa a distância entre Jerusalém e Emaús. Não nos interessam as perguntas sem respostas. O cenário antigo que nos remeteu à tristeza, não conta. A certeza de que Cristo sempre desce conosco a Emaús. Suas perguntas nos remetem às velhas promessas bíblicas. Sua explicação é convincente. “Era necessário padecer” Lucas 24:26. Enchem o coração de consolo. Não há acasos. Tampouco determinismo ou destino. Deus tem o controle da história. A cruz integrava o projeto redentor do Senhor. Nela vemos a revelação plena do amor que perdoa. Que desafia-nos a olhar com os olhos da fé, não um reino material, mas a vida de plena comunhão com Cristo. Sempre é possível parar quando a tristeza chega e ouvir a voz do Mestre apontando o caminho de retorno ao Calvário.

por: Pr. Julio Oliveira Sanches

Salvos / Portal Padom

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