Quem anda com gente acaba se esbarrando e tem que pedir desculpa. Tem que perdoar. Quanto mais perto andamos uns dos outros, maior a possibilidade de esbarrar, de ferir e de magoar, portanto o perdão é moeda imprescindível no mercado do casamento, sem a qual a falência do relacionamento quebrará os laços uma vez jurados.

A teoria é simples:

para quem feriu: se acontecer de ferir o outro, peça perdão, procure não repetir o que fez, aguarde com paciência o outro se recuperar do ferimento que você mesmo causou e tudo volta ao normal.

para quem foi ferido: facilite o perdão, procure perdoar mesmo antes de o outro pedir perdão, verbalize que perdoa, se for o caso, diga como doeu e perdoe.

A teoria é simples, mas é difícil. Escrever é fácil, falar é tranquilo; duro é praticar.

C.S. Lewis disse:

Todos dizem que o perdão é uma ideia maravilhosa até que elas possuam algo para perdoar.

Quem fere o outro não sente a dor do golpe e tende a achar que o ferimento foi coisa à toa. Ele pede perdão, como quem dá um pequeno esbarrão no outro. A tendência do ofensor desligado é exigir que a pessoa a quem ele feriu, dê um sorriso, volte a agir normalmente e lhe dê um beijo pela sua humildade em pedir perdão. Ele quer uma recuperação instantânea, como se a pessoa ofendida fosse um robô, que uma vez declarada a palavra, “está bem, eu perdoo”, as dores da ofensa desaparecessem.

Infelizmente não é assim que acontece. Gosto da ilustração de um ferimento físico, que serve para nos ajudar a entender o que acontece na alma. Vamos usar um homem covarde, que dá um soco no olho da esposa. O rosto dela fica desfigurado. A visão dela se embaça, todos os que olharem para ela saberão que houve um conflito em casa, saberão que o marido dela é um louco e que ela foi humilhada e ferida. Quando isso acontece de fato, recomendo que a esposa procure ajuda da igreja e das autoridades, mas estamos só fazendo uma ilustração para entendermos o processo.

O marido desligado, se arrepende, chora, pede perdão, promete mudar e toca a esposa com carinho. Ele vai buscar ajuda. Conta para o seu pastor e procura até um médico. Ele se humilha de todas as maneiras que pode, mas a esposa continua triste, abatida e o olho roxo continua lá. Por incrível que pareça, ele fica com raiva da mulher. Ele começa a cobrar dela uma mudança. Quer que a mulher se alegre e que não sinta mais dor! Essa imagem caricatural serve para mostrar como quem pede perdão fica logo impaciente quando o outro demora a “voltar ao normal”.

Quem fere, deve não só fazer de tudo para curar o ferimento que causou, como precisa aprender a esperar a recuperação do outro. Traição é um pecado que estraçalha um casamento. Quando um dos dois adultera e pede perdão depois, gera vários “olhos roxos” na alma do outro e precisa aguardar o tempo certo da recuperação.

Quem é ferido, por sua vez, precisa reconhecer o arrependimento de seu ofensor. Mesmo que a ofensa seja repetida. Veja o que Jesus falou

Se, contra ti pecar sete vezes ao dia, e por sete vezes vier a ter contigo, dizendo: ‘Arrependo-me do que fiz’. Perdoa-lhe!” (Lc 17.4)

A fórmula parece louca, mas é o segredo para o casamento funcionar. Sem perdão, não há solução. Quando a pessoa é ferida, precisa se predispor a perdoar e, talvez, se proteger. Isso, porque perdoar não implica em se expor ao perigo novamente, mas a parar de cobrar aquela dívida. Quem foi ofendido deve perdoar até antecipadamente e quando o outro lhe pedir o perdão, pode haver a reconciliação.

Porém, por vezes, enquanto se cura, o ferido pode aproveitar a situação para vingar-se. Não é nada tão visível, mas há um deleite secreto de ver o outro mendigando o perdão e humilhar a pessoa arrependida não há de melhorar a dor do ferimento que ele causou. Talvez o raciocínio errado seja: “se eu perdoar fácil, ele vai fazer novamente”. Ou ainda: “ele tem que sofrer para ver o que é bom”. Para entender esse processo, vamos usar outra ilustração.

Imagine que uma desposa descuidada, com preguiça de guardar uma caneta na casa de uns amigos, colocou o objeto no bolso da calça do marido sem que ele percebesse. Enquanto ele e seus amigos brincavam de “lutinha”, caíram um em cima do outro, de modo que a caneta perfurou um dos testículos do marido. Ele nem sabia que tinha uma caneta do bolso. Ela não fez aquilo por querer, imagine! Porém, ela foi a causadora indireta de um acidente.

Depois de pedir perdão e de ajudar o marido a se recuperar, o que mais ela poderia fazer? Ninguém pode voltar no tempo e desfazer as burradas que fez! Se esse marido ficar demorando muito para perdoar, humilhando e resistindo, ele estará pecando contra a esposa e ferindo quem não precisa ser ferida. Isso pode arruinar um casamento. Usar o período de perdão para subjugar o outro e fazê-lo sofrer é uma ofensa, assim como a que o outro causou.

Portanto, quem foi ferido deve facilitar e liberar o perdão tão logo quanto consiga e quem feriu deve ter paciência de aguardar o outro se recuperar

por: Salomão Santos

Amo família

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